O que a poesia de Drummond tem a ver com meu caminho?

Durante as sessões de coaching que realizo com meus clientes, é muito comum me deparar com repetidas falas sobre a ausência de coragem e preocupação com a opinião social em relação às suas próprias realizações ou não realizações, pois muitas vezes essas ideias ou planejamentos nem chegam a acontecer associadas a esse sentimento paralisador.

É sobre isso que pretendo falar nesse texto, sobre situações limitantes e coragem.

Carlos Drummond de Andrade, autor de um dos poemas mais conhecidos e significativos da literatura poética brasileira, escrito em 1924, a poesia “No meio do caminho”, publicado incialmente na revista de Antropofagia em 1928 e depois em seu primeiro livro Alguma Poesia, nos dá uma lição de ousadia e reflexão sobre a nossa própria capacidade de encorajar-se.

Ao escrever esse poema, Drummond causou uma revolução à poesia da época e depois desse feito, questões como rima, métrica ou até mesmo mensagem não foram considerados o padrão único da poesia.

Uma atitude para lá de audaciosa, em um momento muito mais conservador. No mínimo para se chegar a esse feito, é necessária ao menos coragem e pouca importância com a opinião pública.

O próprio poeta dizia que poderiam passar 50 anos que esse poema nunca deixaria de ser julgado. Isso jamais impediu Drummond de se tornar um dos maiores poetas brasileiros, que a meu ver é o maior.

A poesia a que me refiro, por si só, já é motivo de reflexão. A leio ao longo de uma vida, e oportunamente crio minhas próprias metáforas para descrever as pedras do caminho.

Drummond diz:

“No meio do caminho tinha uma pedra

tinha uma pedra no meio do caminho

tinha uma pedra

no meio do caminho tinha uma pedra. ”

Se para o poeta, falar sobre pedras no meio do caminho, chega a causar angústia ou sensação de estar fatigado pela repetição, para nós é importante olhar algo tão “banal” e considerá-lo na nossa rotina exaustiva.

As pedras existem e devem ser consideradas. A pseudo banalidade com qual a poesia foi vista ao longo dos anos, nos faz olhar para, seu sentido nada banal, tanto que percorre os anos e a mantém viva e presente.

Em nossas vidas, costumamos desencorajar-se diante das dificuldades, pedras no caso do Drummond. Muitas vezes, somos incapazes de olhar com clareza para as nossas próprias limitações ou nos colocamos diante da opinião pública para nos enquadrarmos no sentido de sucesso ou reconhecimento.

Mas, e as pedras? É necessário considera-las e repetir em voz alta a existência delas, como fez Drummond em sua poesia.

É importante não as colocar embaixo do tapete das nossas vidas, é preciso as manter em nossas retinas fatigadas e com isso compreender e entender os recursos e capacidades que dispomos a ponto de nos permitir encorajar-se. É olhar para elas e não dar a elas um sentido ainda maior que seu próprio significado.

Muitas delas, a gente consegue retirar da frente, mas outras, podem conviver conosco uma vida, podem permanecer no nosso íntimo maior, inconscientemente ou não. Ter o conhecimento da sua banalidade ou força é tão importante quanto retirá-las. Essa capacidade de avançar corajosamente ainda que conscientemente sábios de nossas limitações, é capaz de promover mudanças significativas em nossas vidas.

Eu acordo todos os dias com a certeza de que “no meio do caminho tinha uma pedra” e trabalho todos os dias para usar o meu maior potencial e sentir-se empoderado para enfrentar os desafios cotidianos, tarefa nem sempre fácil, porém unicamente humana.

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Ricardo Leme

Ricardo Leme

Professional Coach, formado pela Sociedade Latino Americana de Coaching, relações públicas, especializado em comunicação organizacional, marketing, sustentabilidade e gestão de negócios de alto impacto social pela Fundação Dom Cabral, a melhor escola de negócios da América Latina. É fundador da Projeta.Me consultoria com foco em desenvolvimento de projetos de impacto social.

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